FALA CORRETA

A modernidade nos trouxe tremenda facilidade de comunicação, através de meios eletrônicos cada vez mais sofisticados. Por outro lado, a par e par com essa velocidade, a comunicação tem se tornado cada vez mais superficial e difícil, quem sabe até pelo vício dos 144 caracteres.

Consequência disso, a qualidade da comunicação caiu, e esta tendência tem se transposto para os mais diversos âmbitos das relações. O ser humano moderno tem dificuldade de conversar com o filho, com a esposa, com o vizinho… que dirá se a troca se der por escrito.

Outro vício decorrente dessa modernidade é o processamento das informações com o máximo de rapidez, a formação de opinião e a reação de acordo com ela em segundos. O mundo digital não admite perda de tempo. Consequência dessa velocidade é a falta de paciência.

O julgar precipitado do falar alheio, sem o necessário tempo de avaliar eficazmente. Corremos em catalogar as opiniões alheias de acordo com o rumo do discurso, sem a devida atenção, e passamos, precipitadamente, a apoiar ou a combater aquela impressão que o discurso nos causou, e não necessariamente a efetiva opinião alheia.

Há ainda um terceiro vício decorrente dessa modernidade. A rispidez. Por meios eletrônicos tendemos a dizer coisas que talvez não diríamos na presença do interlocutor. É mais fácil sermos ríspidos sem olhar nos olhos. E sempre há a alternativa de encerrar qualquer diálogo com apenas um clique.

Tudo isso se nos passa despercebido, mas basta observar aos que nos cercam, e quiçá a nós mesmos, para identificarmos pessoas cada vez mais intolerantes, agressivas, irascíveis, e sempre na defensiva, como se estivessem a todo tempo sendo agredidas.

E essa digressão nos leva ao tema deste ensaio, qual seja, a FALA CORRETA.

Essa expressão foi retirada dos ensinamentos budistas, mas como aqui não se quer tratar especificamente dessa doutrina, faremos apenas breve explicação a respeito, apenas para situar o ouvinte/leitor.

Bem, o budismo trata basicamente do sofrimento humano, tentando apontar-lhe as causas (quatro nobres verdades) da mesma forma que se lhe aponta os remédios (caminho óctuplo).

O caminho óctuplo para extinção do sofrimento seria:

1-    A visão correta;

2-    A intenção correta;

3-    A fala correta;

4-    A ação correta;

5-    O meio de vida correto;

6-    O esforço correto;

7-    A atenção correta;

8-    A concentração correta.

O item que aqui nos interessa é a fala correta, que consiste não apenas em não mentir e difamar, mas também em não tagarelar, não fofocar, não falar rudemente, mas falar apenas de maneira honesta, harmoniosa, reconfortante e significativa. Reparem que o budismo aponta esse proceder como um dos caminhos para a PRÓPRIA FELICIDADE do indivíduo, e não dos demais.

Isso inclui, e isso é muito importante, não apenas O QUE falar, mas também COMO falar e mesmo QUANDO FALAR.

A desculpa mais comum quando tratamos com pessoas ríspidas é que elas estavam apenas “falando a verdade”, porém, falar a verdade de uma forma severa quase sempre não constitui em sinceridade, mas simples falta de educação. Esse tipo de fala pode ser sincera, mas não é compassiva.

Da mesma forma há o momento adequado para se falar algo, e momentos em que aquela fala só traria sofrimento, importante distinção a se fazer antes de emitir qualquer manifestação.

Outro argumento que poderíamos oferecer contra este tipo de discurso, seja ele falado ou escrito, é que ele NÃO ALCANÇA SEU OBJETIVO, pois provoca naquele que é alvo um sentimento de revolta ou indignação, e imediata rejeição da ideia proposta, ao contrário de convencer, reconfortar, aconselhar. Em suma, é simples agressão inútil.

Um dos segredos da “fala correta” apontada por alguns exegetas das escrituras budistas seria de grande simplicidade. Consiste no OUVIR.

Primeiramente ouvir, com calma e tolerância, até termos apreendido de forma integral o pensamento de quem se expressa, e então, e só a partir daí, formarmos opinião e nos manifestarmos.

Há certa tribo de índios norte-americana que dialoga assim. Um dos interlocutores fala em primeiro lugar, e fala o quanto achar necessário, sem ser interrompido em nenhum momento pelo segundo, que somente se manifesta a partir do momento em que o primeiro disser que terminou. Isso não nos recorda a fala em loja maçônica e a sua circulação da palavra? Será que esquecemos que o sinal do aprendiz nos remete especialmente ao silêncio? Pelo menos até que o nosso coração seja posteriormente transmutado…

O ouvir compassivo seria então o segredo do melhor apreender a mensagem que nos quer ser transmitida, sem julgamentos precipitados.

Apreendida a mensagem, passamos a nos manifestar. Mas o que dizer? E como?

Para nos auxiliar nisso temos a parábola das três peneiras, a qual resumiremos a seguir:

A primeira é a da verdade. Você tem certeza de que o que vai falar é verdade? Se for algo que lhe contaram então você não tem certeza, e, portanto, a sua fala não passou na primeira peneira.

A segunda é a da bondade. A sua fala é boa? Você gostaria que dissessem isso sobre ou para você? Caso não, a sua fala não passou na segunda peneira.

A terceira é a da necessidade. É necessário que você diga isso? Vai adiantar alguma coisa? Será benéfico para alguém? Caso não, a sua fala não passou na terceira peneira.

Assim só devia deixar as nossas bocas qualquer fala que perpassasse essas três peneiras.

Alguns poderiam retorquir que tratar de maneira afável alguém que nos afronta seria covardia e falsidade, mas se trata apenas de civilidade. Já disseram mesmo que o ignorante nos arrasta para o seu nível de discussão, para daí nos vencer pela experiência.

Mas vejam, em maçonaria deveríamos cultuar a tolerância, e essa nos é ensinada e requerida.

Principalmente em loja, ou em qualquer outro lugar em que nos encontremos entre irmãos (quer este ambiente seja físico ou virtual), deveríamos proceder com urbanidade. A despeito do caos que reine na sociedade profana devemos resistir ao máximo em importar esses costumes nefastos para dentro dos limites maçônicos.

Pelo contrário! Devíamos é exportar as virtudes maçônicas, e dentre essas a tolerância, para o mundo profano, nosso trabalho, convivência familiar, etc, caso contrário estaremos sendo maçons apenas uma noite por semana.

Por isso, exortamos: Tolerância! Paciência! Fala correta!

Este é o mínimo a se esperar daquele que bem compreendeu o sinal de aprendiz.

Fábio Henrique Hardt   M.:I.: MRGLMERS  32º REAA

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