O DISCURSO DE LEDO E O DIA DO MAÇOM

Por Francisco Feitosa (Publicado na Revista Arte Real, edição virtual nº 18 – agosto/2008)

> Abaixo, transcrevemos o famoso e eloqüente discurso do Irmão Joaquim
> Gonçalves Ledo, realizado na 14ª Sessão – Assembléia do GOB, no 20° dia
> do 6° mês, quando, na oportunidade, como Primeiro Grande Vigilante,
> exerceu mais uma vez o Grão-Mestrado no impedimento do Grão-Mestre José
> Bonifácio.
>
> “SENHOR! A natureza, a razão e a humanidade, esse feixe indissolúvel e
> sagrado, que nenhuma força humana pode quebrar, gravaram, no coração do
> homem, uma propensão irresistível para, por todos os meios e com todas
> as forças em todas as épocas e em todos os lugares, buscarem ou
> melhorarem o seu bem-estar. Este principio tão santo como a sua origem,
> e de centuplicada força, quando aplicado às nações, era de sobra para o
> Brasil, essa porção preciosa do globo habitado, não aceder à inerte
> expectação de sua futura sorte, tal qual fosse decretada longe de seus
> lugares e no meio de uma potência (Portugal), que deveria reconhecer
> inimiga de sua glória, zelosa de sua grandeza, e que bastante deixava
> ver, pelo seu Manifesto às nações, que queria firmar a sua ressurreição
> política sobre a morte do nascente Império Luso-Brasileiro, pois baseava
> as razões de sua decadência sobre a elevação gloriosa desse filho da
> América – o Brasil.
> Se, a esta tão óbvia e justa consideração, quisesse juntar a sua
> dolorosa experiência de trezentos e oito anos, em que o Brasil só
> existira para Portugal, para pagar tributos, que motivos não encontraria
> na cadeia tenebrosa de seus males, para chamar a atenção e vigilância de
> todos os seus filhos a usar da soberania, que lhe compete, e dos mesmos
> direitos, de que usara Portugal, e por si mesmo tratar de sua existência
> e representação política, da sua prosperidade e da sua constituição?
> Sim, o Brasil podia dizer a Portugal: “Desde que o sol abriu o seu
> túmulo e dele me fez saltar, para apresentar-se ao ditoso Cabral a minha
> fertilidade, a minha riqueza, a minha prosperidade, tudo te sacrifiquei,
> tudo te dei, e tu que me deste? Escravidão e só escravidão. Cavavam o
> seio das montanhas, penetravam o centro do meu solo, para te mandarem o
> ouro, com que pagavas às nações estrangeiras a tua conservação, e as
> obras, com que decoras a tua majestosa capital; e tu, quando a sôfrega
> ambição devorou os tesouros, que, sob mão, achavam-se nos meus terrenos,
> quiseste impor-me o mais odioso dos tributos, a “capitação”. Mudavam o
> curso dos meus caudalosos rios, para arrancarem de seus leitos os
> diamantes que brilham na coroa do monarca; despiam as minhas florestas,
> para enriquecerem a tua grandeza, que, todavia, deixava cair das
> enfraquecidas mãos … E tu que deste? Opressão e vilipêndio! Mandavas
> queimar os filatórios e teares, onde minha nascente indústria
> beneficiava o algodão, para vestir os meus filhos; negavas-me a luz das
> ciências, para que não pudesse conhecer os meus direitos nem figurar
> entre os povos cultos; acanhavas a minha indústria, para me conservares
> na mais triste dependência da tua; desejavas, até, diminuir as fontes da
> minha natural grandeza e não querias que eu conhecesse o Universo, senão
> o pequeno terreno, que tu ocupas. Eu acolhi no meu seio os teus filhos,
> a cuja existência doirava, e tu me mandavas em paga tiranos indomáveis,
> que me laceravam.
> Agora, é tempo de reempossar-me de minha Liberdade; basta de
> oferecer-me em sacrifício às tuas interessadas vistas. Assaz te conheci,
> demasiado te servi… – os povos não são propriedade de ninguém.
> Talvez, o Congresso de Lisboa, no devaneio de sua fúria (e será uma
> nova inconseqüência), dê o nome rebelião ao passo heróico das províncias
> do Brasil à reassunção de sua soberania desprezada; mas, se o fizer,
> deverá, primeiro, declarar rebelde a Razão, que prescreve aos homens não
> se deixarem esmagar pelos outros homens, deverá declarar rebelde a
> Natureza, que ensinou aos filhos a se separarem dos seus pais, quando
> tocam a época de sua virilidade; é mister declarar rebelde a Justiça,
> que não autoriza usurpação, nem perfídias; é mister declarar rebelde o
> próprio Portugal, que encetou a marcha de sua monarquia, separando-se de
> Castela; é mister declarar-se rebelde a si mesmo (esse Congresso),
> porque, se a força irresistível das coisas prometia a futura desunião
> dos dois Reinos, os seus procedimentos aceleraram essa época, sem dúvida
> fatal para outra parte da nação que se queira engrandecer.
> O Brasil, elevado à categoria de Reino, reconhecido por todas as
> potências e com todas as formalidades, que fazem o direito público na
> Europa, tem inquestionavelmente jus de reempossar-se da porção de
> soberania que lhe compete, porque o estabelecimento da ordem
> constitucional é negócio privativo de cada povo.
> A independência, Senhor, no sentido dos mais abalizados políticos, é
> inata nas colônias, como a separação das famílias o é na Humanidade.
> A natureza não formou satélites maiores que os seus planetas. A América
> deve pertencer à America, e Europa a Europa, porque não debalde o Grande
> Arquiteto do Universo meteu entre elas o espaço imenso que as separa. O
> momento, para estabelecer-se um perdurável sistema e ligar todas as
> partes do nosso grande todo, é este…
> O Brasil, no meio das nações independentes, e que falam com exemplo de
> felicidade, não pode conservar-se colonialmente sujeito a uma nação
> remota e pequena, sem forças para defendê-lo e, ainda, para
> conquistá-lo. As nações do Universo têm os olhos sobre nós, brasileiros,
> e sobre ti, Príncipe !
> Cumpre aparecer entre elas como rebeldes, ou como homens livres e
> dignos de o ser. Tu já conheces os bens e os males que te esperam e à
> tua posteridade. Queres ou não queres?
> Resolve, Senhor!”
>
> Cabe salientar que as datas, em que foram realizadas as Sessões do GOB,
> em seus primórdios, vêm criando inúmeras confusões graças à falsa
> interpretação do Barão do Rio Branco, em notas de “História da
> Independência do Brasil”, de Varnhagen, copiando Manoel Joaquim de
> Menezes, em um erro largamente divulgado, através de diversos
> compiladores, o que gerou inúmeras controvérsias, inclusive, sobre a
> data de fundação do GOB, devido à confusão do calendário, utilizado na
> época: o hebraico (iniciado em 21 de março), utilizado pelo Rito
> Adonhiramita, ou o antigo romano (iniciado em 1º de março), utilizado
> pelo Rito Moderno.
> Enfim, essa situação poderá ser bem elucidada através do livro
> “História do Grande Oriente do Brasil – A Maçonaria na História do
> Brasil”, de autoria do historiador maçônico José Castellani, editado
> pelo próprio GOB. Castellani se baseou em documentação do GOB, que
> poderá ser acessada na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, com o
> título: “Documentos para a História da Independência”, volume I, onde,
> no capítulo referente à Maçonaria e à Independência, consta a certidão
> das Atas das Sessões do Grande Oriente, em 1822.
> Além disso, existe outro documento oficial do GOB, na forma de Ato
> exarado, emitido em 1922, por ocasião do centenário de sua criação.
> A data, em que foi proferido esse fervoroso discurso de Ledo, foi
> sugerida e aprovada como o Dia do Maçom, na 5ª Reunião da CMSB,
> realizada em Belém, PA, em 1957, por sugestão da GLMMG, baseando-se na
> falsa interpretação do Barão do Rio Branco. Por isso, comemoramos o Dia
> do Maçom em 20 de agosto, quando, na verdade, esse discurso foi
> proferido no 20º dia do 6º mês (Elul), o que nos remete à data de 09 de
> setembro.
> Como o objetivo de nossa Revista Arte Real é tratar a Cultura com a
> seriedade que ela merece, estamos apresentando esse tema com equilíbrio
> e ressaltando que a veracidade dos fatos não tira, de jeito e maneira,
> nosso direito de comemorarmos o dia 20 de agosto como o Dia do Maçom.
> Em verdade, esse dia deve ser comemorado pelos verdadeiros Maçons todos
> os dias, através de uma postura altruística, a exemplo de nossos Irmãos
> do passado que se souberam impor e derrubar as Bastilhas, assoladoras da
> sociedade brasileira.
> Muitas Bastilhas, ainda, existem, e precisamos, urgentemente,
> derrubá-las. Ressuscitemos nosso saudoso Irmão Ledo dentro de nós,
> através de uma conduta digna de um verdadeiro Maçom. A sociedade exige
> uma Maçonaria mais atuante. Por que não quebrarmos essa quase inércia
> desde já, aproveitando esse ano eleitoral?
> Feliz Dia do Maçom!

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